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As Provinciais Santo Andreenses (I).

  Meu irmão S. M., me dirijo a você com muita alegria, ao reconhecer seu impulso de retomar uma tradição que tínhamos há muito estabelecido, desde nosso período de adolescência, de nos comunicarmos por meio de cartas. Que esta faça jus ao nosso passado.     Você me pergunta sobre minha opinião a respeito da situação cultural que o país se encontra. Eu não posso deixar de tecer alguns comentários à respeito — receio não poder realizar mais do que isso, não só pela falta de tempo, mas também pela minha franca inabilidade de pensar sistematicamente nestes últimos tempos.   I.     Todas as categorias possíveis de serem usadas na história política das nações foram extensiva e abusivamente usadas para definir o Brasil. Carlyle não sobrevive nem para ser criticado — nossos grandes homens são muito pequenos para serem sujeitos históricos de algum domínio simbólico que seja. O tempo longo realmente é longo na história brasileira? Annales surge na França, u...

Medicina e Angústia.

    Ao meu amigo de futura profissão, Lucas M., cujas discussões sempre frutuosas levaram a concepção desse texto. Sofremos juntos (Salmo 119, 50).     É preciso deixar claro que todas as impressões aqui denotadas não são mais que isso; impressões, e de um aluno ingressado em uma instituição de formação médica. Não deixam de ser, porém, impressões do fundo de uma alma que pensa e que atua.   *    A angústia é um sentimento muito próprio do verdadeiro interessado em medicina; e com isso, não nos referimos a angústia do estudante medíocre, a angústia simples do receio de não passar de determinado semestre, de não tirar o necessário em determinada prova, etc. Fala-se de uma angústia atávica, propriamente experienciada por todo o estudante cuja vocação médica de fato se apresenta: a angústia de não entender o bastante; de estar, de certa maneira, fingindo que sabe mais do que de fato sabe. A relação entre médico e paciente demanda uma respeitabilidade...

Luís Fernando, Veríssimo.

  Como é engraçado pensar em Luis Fernando Verissimo. É verdade, não é um autor reivindicado por nenhuma escola, nenhuma posição política. Os arautos da alta cultura não o conhecem - como não conhecem, em verdade, coisa nenhuma -, os entusiastas de vanguarda o acham pouco sério. Só quem tem ciência de quem é Luis Fernando Verissimo é o povo brasileiro, mesmo. São milhões de livros vendidos, um dos mais bem sucedidos escritores do país, e não desses que some da memória depois do furor, nem desses cujo sucesso decorre de polêmicas violentas.  É engraçado pensar nele porque não se computa com facilidade um homem tão eloquente na escrita, talvez a mais eloquente da nossa história, ser tão lacônico em entrevistas, na vida real . Embora a intenção desse texto não seja analisar a obra e o estilo de Verissimo, e sim entender um pouco o que a figura deste autor pode nos sugerir, não podemos fugir de falar, mesmo que minimamente, sobre a escrita de um escritor . Verissimo possui uma ...

Adeus a Joseph Ratzinger.

É muito difícil falar sobre nosso primeiro teólogo. Confesso que li uma quantidade abstrusa deles, de diferentes nacionalidades, enfoques, vertentes e idiossincrasias, mas meu primeiro foi Ratzinger. Foi com “Introdução ao Cristianismo”, “Jesus de Nazaré”, “O Espírito da Liturgia” e tantos outros que eu iniciei esse percurso, há alguns anos atrás. E mesmo que meu interesse não tenha sido tão vívido com sua obra depois do início, é praticamente impossível navegar em querelas da Igreja atual sem retomar “Dogma e Anúncio”, “Teologia da Liturgia”, “Igreja, Ecumenismo e Política”… a lista poderia continuar.   Talvez a primeira questão que surja sobre a figura de Ratzinger, e aquela que mais incomoda os espíritos apequenados, diletantes, irriquietos em condenar o que lhes falta — gênio —, é sua incapacidade de se moldar a um esquema. Na verdade, boa parte dos grandes teólogos que são postos em um esquema, se bem estudados, demonstram também que foram postos ali de forma grosseira, resu...

Possessão e Suicídio

  “ Sim, a ética [é] antes e para-além da deontologia, do Estado ou da política, porém a ética [é] também para-além da ética ” – Derrida, “ Adeus a Emmanuel Levinas ”.      A afirmação do homem como animal social é subestimada pela grande maioria da tradição filosófica ocidental. Podemos, na mesma perspectiva em que Eric Weil corrige certos lugares comuns a respeito do “homem como animal racional” apontar algumas questões a respeito do homem enquanto social.    Primeiro, se o homem é de fato um animal possível de razão, isso não lhe define, de imediato, como racional; mais correto seria chamá-lo de animal razoável, posto que a operabilidade da razão nele só se atualiza por um posicionamento.    Segundamente, o ato da razão no homem, que o implica inelutavelmente já dentro do campo da razoabilidade, o impinge a questionar o seu estado prévio, definindo este como violência. A razoabilidade do homem, quando atualizada em razão efetiva, impõe o limite...