Luís Fernando, Veríssimo.
Como é engraçado pensar em Luis Fernando Verissimo. É verdade, não é um autor reivindicado por nenhuma escola, nenhuma posição política. Os arautos da alta cultura não o conhecem - como não conhecem, em verdade, coisa nenhuma -, os entusiastas de vanguarda o acham pouco sério. Só quem tem ciência de quem é Luis Fernando Verissimo é o povo brasileiro, mesmo. São milhões de livros vendidos, um dos mais bem sucedidos escritores do país, e não desses que some da memória depois do furor, nem desses cujo sucesso decorre de polêmicas violentas.
É engraçado pensar nele porque não se computa com facilidade um homem tão eloquente na escrita, talvez a mais eloquente da nossa história, ser tão lacônico em entrevistas, na vida real. Embora a intenção desse texto não seja analisar a obra e o estilo de Verissimo, e sim entender um pouco o que a figura deste autor pode nos sugerir, não podemos fugir de falar, mesmo que minimamente, sobre a escrita de um escritor. Verissimo possui uma escrita testemunhal, centrada principalmente no tema da liberdade nas relações humanas e, portanto, nada mais racional que sua propensão tenha sido a crônica; um estilo flexível, liberto, e que promete, evidencia, a realidade do cotidiano de um certo sujeito. Mas um estudo sobre a vida do nosso autor pode trazer algumas informações pouco destacadas.
Verissimo é um escritor tardio. Começou essa senda aos 30 anos, e por necessidade; não tinha emprego, então escreveu. Mas ocorreu que esse homem não-escritor, apaixonado por jazz - voltaremos a isso -, lacônico, laconíssimo, tinha muito a dizer. Sua produção é exorbitante, quase toda de crônicas, quando não meia dúzia de romances, todos sob encomenda de alguma coleção, alguma ocasião especial. E esse homem tão profícuo, tão cômico, tão leve e profundo nos seus exames sobre o dia-a-dia de todas as realidades do brasileiro, não consegue, nem quer, se expressar da mesma forma a um público cativo e atento num auditório. Seu semblante é reduto, cativo. A voz? Trepidante, mas presente - sem arrogância, apenas educadamente pedindo para ir embora o quanto antes. Homem pobre, admitidamente, da leitura dos clássicos, e dizemos: graças a Deus! Chega de homens que leram os clássicos.
Por mais que Verissimo tenha escrito um romance em homenagem a Borges, o jazz nos lembra, evidentemente, de Julio Cortázar, outro apaixonado pelo gênero. Cortázar definia a melhor literatura como uma sucessão de takes: "risco implícito na execução, margem de perigo que constitui o prazer do volante, do amor", o take, corpo do jazz, é uma improvisação, que se projeta na união molecular entre o conhecimento teórico do "volante"-músico, e a liberdade criativa do momento, do tempo, do aqui-e-agora e, mais ainda, o momento da relação entre os músicos. Tudo Verissimo.
É verdade que a concepção do escrever como take dá prevalência absoluta ao momento criativo, ao momento, no caso de Verissimo, que testemunha certa realidade prosaica da educação, do sexo, da cultura popular, da nação, enfim. O take de Verissimo é sempre arriscado, se anuncia na fragilidade de uma situação que se torna especial e profunda, no precípuo ponto em que é frágil. Jean Louis-Chrétien, um desses desconhecidos que vale mais do que muitos conhecidos, definia a fragilidade como essa característica do finito exposto enquanto finito, que fascina, que enternece e que é base de uma estética diferente daquele triunfalista, própria da civilização greco-romana - ao invés de impressionar pelo sublime edifício em seu primor, essa estética se rende pelas ruínas. O epítome da fragilidade seria a voz. A voz humana emociona pela "fragilidade que é nossa e do seu significado, constitui a manifestação mais elevada, e a mais nua, e é através dela que esta jornada terminará. É, em sua ressonância, puro trânsito e puro movimento, e mesmo que se consiga segurar uma nota ou alongar uma sílaba, sua lei é fazer uma articulação seguir a outra, e ir se esvaindo sem deixar rastro, se não na memória do ouvinte. É por isso que, de Santo Agostinho a Husserl, muitos filósofos a tomaram, na forma da frase ou da melodia, como suporte para pensar a temporalidade. E se, como dizíamos, podemos ter um 'órgão' mais ou menos potente, existe a possibilidade permanente da nossa voz quebrar ou mudar, da rouquidão ao cansaço, da vergonha à gratidão, do susto ao choque. A voz faz ouvir as próprias emoções que gostaríamos de esconder, e uma voz inalterável e sempre segura de si nos perturba por sua oratória ou mecânica".
Talvez aqui se encontre a chave pela qual possamos entender o sucesso da comédia de Verissimo; a fragilidade exposta nas relações cotidianas pela sua escrita úmida, facilmente deslizante, é confluente com a realidade do brasileiro; uma realidade que na grande maioria dos casos se coloca contra o sujeito, se apresenta como interpelação, como estrutura. A solução terapêutica do analista de Bagé, afinal, é um joelhaço. É uma escrita, uma obra toda voltada a análise daquilo que oprime e contrange o brasileiro não "por dentro" (a culpa, o remorso, esses temas distantes), mas por fora. São sempre as relações com o outro que estão postas como tema primordial, seus êxitos e seus fracassos - porque todo o take é frágil, e pode suceder ou morrer, mas para vir a ser uma dessas coisas precisa primeiro ser. É preciso arriscar, escolher. E dessa fragilidade, de onde, parece de início, não pode surgir nada de grande valor, erige-se uma beleza própria, uma realidade absolutamente comunicável e comunicante, que dá gosto de ler e reler. É a surpresa da vida, impossível de "algarismar", como dizia Mário de Andrade, pelos conservadores, progressistas, que seja. A vida acima de toda a fórmula, porque é real - e o resto não é. Essa surpresa surge na figura de nosso autor; escritor gigantesco, tardio e por necessidade (como o extrínseco que incomoda o brasileiro, a interpelação que é tema de sua própria escrita), cheio de expressão nas crônicas e tão quieto e sisudo na fala. Mas se se fosse diferente, não seria essa voz sempre frágil, cambiante, original e real e portanto digna de ser ouvida.
Em Verissimo tudo é desnudado, simplesmente posto enquanto vivo e frágil, como o take, sustentado fracamente por este monte de relações instáveis humanas; a relação entre aluno e professor, homem e mulher, julgado e juiz, analista e paciente. Mas, se é verdade que o take sustenta-se fragilmente, pronto para ser esmagado pela nota fatalmente equivocada, ainda assim vive ao menos naquele momento, se expõe para nós na crônica e, nessa exposição, nos mostra um pouco da realidade - a realidade que supera qualquer conceito, qualquer abstração e classicismo.
Esse momento frágil, que define todo o momento que importa, que é real, nos cativa na medida em que sua liberdade caminha sobre veredas inesperadas. Esse espaço ao inesperado, que assusta os arautos do limitante, é o precursor do humor. Era Bergson que sugeria que todo o humor não é nada senão a ameaça a toda a sociedade ordenada - o medo como um prelúdio ao terror do que ameaça a ordem contraditória que marca toda a existência atual. O riso como defesa. Talvez seja por isso que não falem muito de Verissimo.
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