Adeus a Joseph Ratzinger.
É muito difícil falar sobre nosso primeiro teólogo. Confesso que li uma quantidade abstrusa deles, de diferentes nacionalidades, enfoques, vertentes e idiossincrasias, mas meu primeiro foi Ratzinger. Foi com “Introdução ao Cristianismo”, “Jesus de Nazaré”, “O Espírito da Liturgia” e tantos outros que eu iniciei esse percurso, há alguns anos atrás. E mesmo que meu interesse não tenha sido tão vívido com sua obra depois do início, é praticamente impossível navegar em querelas da Igreja atual sem retomar “Dogma e Anúncio”, “Teologia da Liturgia”, “Igreja, Ecumenismo e Política”… a lista poderia continuar.
Talvez a primeira questão que surja sobre a figura de Ratzinger, e aquela que mais incomoda os espíritos apequenados, diletantes, irriquietos em condenar o que lhes falta — gênio —, é sua incapacidade de se moldar a um esquema. Na verdade, boa parte dos grandes teólogos que são postos em um esquema, se bem estudados, demonstram também que foram postos ali de forma grosseira, resumida e criminosa. Mas Ratzinger teve uma vantagem diante de Rahner, Congar, Balthasar, Lubac: viveu além, e pôde se posicionar concretamente nas polêmicas de nosso milênio. Esses posicionamentos nem sempre agradaram, mas sempre foram genuínos, e sempre foram confluentes a todo o carisma de sua obra — representam esse desejo inelutável de união com o Evangelho, de manter uma relação profunda, cardíaca, com Cristo.
Toda a teologia de Ratzinger é uma teologia do Coração, da busca do centro, da fonte e do cume da Caridade. Deus de Deus, Mente da Mente, Vida da Vida; essas sentenças de pleonasmos que caracterizam tanto o discurso patrístico sobre a essência da Trindade — e, portanto, A Essência de Tudo, o Tudo de Tudo — quanto o discurso daquele Doutor que melhor sintetiza a empresa ratzingeriana, São Boaventura, são todas sentenças cardíacas, cujo esforço é nos lembrar do fundamental, do elementar, daquilo que não muda e que, por não mudar em seu fundamento — a Vida —, sempre se refaz e re-atualiza na História.
A imagem desse homem, que é simplesmente um cristão em busca de viver o fundamento da experiência de Cristo, não escapa das tentativas de distorção que supostamente carregam seu nome.
Ratzinger, o Conservador? O Conservador que citou inúmeras vezes Chardin em seus discursos enquanto Papa? E que usa de Chardin em boa parte dos seus escritos? O conservador que advoga uma concepção não personalista do Diabo em seu “Dogma e Anúncio”? Qualquer um que conheça sua obra não pode deixar de esboçar uma tristeza profunda diante da tentativa desses novos setores “da verdadeira doutrina católica” que rondam as paróquias e os poderes eclesiásticos de ler um gigante sob a sua pequena e limitada, limitadíssima régua.
Ratzinger, o Progressista? O homem que reabilitou a missa tridentina, causando um imbróglio que levantou todo o exército de liturgistas italianos contra si? O homem que guardou com intransigência todas as instâncias morais das encíclicas recentes? O cardeal Panzer, que punia quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tantos teólogos e pensadores?
Ratzinger é, tão somente… Ratzinger. O pesquisador, teólogo e homem que investigou, com severa sinceridade, os fundamentos da Fé no Deus Bíblico, Deus de Salvação, Deus que nos convoca a confrontar o Mundo. Um de seus livros pouco conhecidos, e que tive o prazer de ler, cuja dedicatória é feita a seu pai, é precisamente o livro em que discute a complicada questão do Deus dos Profetas e do Deus dos filósofos. Nosso teólogo sempre viu, nessa sua orientação cardíaca, a necessidade de enfatizar a ruptura radical que o Povo de Deus trouxe com Abraão, ruptura total e universal. Aquilo que comumente o cristão particulariza em um momento de sua vida como "conversão", numa teologia cardíaca como a de Ratzinger, permanece viva durante todo o percurso do homem para Cristo — tal como a Criação é um evento sempre ativamente conservado por Deus em sua gratuidade frutificante, assim o homem cristão que nasce novamente no batismo não só "aperfeiçoa" sua natureza, mas se ressignifica, se transforma radicalmente; nada sobra de estável fora do mistério de Deus de Sinai, do Deus Crucificado.
Isso explica o grande fascínio de nosso teólogo pela figura de Mario Vitorino nas Confissões de Agostinho. Diz Ratzinger:
"Com isso torna-se claro um último ponto, que nos reconduz ao início. Agostinho conta em suas Confissões como se tornara decisivo para o seu próprio caminho de conversão saber que o conhecido filósofo Mário Vitorino se havia tornado cristão, após ter-se recusado durante muitos anos a ingressar na Igreja, alegando já possuir em sua filosofia todos os elementos essenciais do cristianismo, com cujos postulados básicos ele concordava. Tendo já, como suas, dentro do seu pensamento filosófico, as idéias cristãs centrais, não lhe parecia necessária a institucionalização de suas convicções mediante uma adesão explícita à Igreja. Como numerosos intelectuais de então e de hoje, via Agostinho na Igreja um platonismo feito para o povo, do qual ele não precisava como platônico lídimo. Como elemento decisivo mostrou-se-lhe apenas o pensamento: somente quem não conseguisse captar a verdade em sua originalidade como o filósofo deveria entrar em contacto com ela mediante a organização eclesiástica. Mas, Mário Vitorino, um belo dia, aderiu à Igreja, convertendo-se de platônico em cristão. E estava aí a expressão de suas convicções a respeito do erro fundamental em que versara. O grande platônico compreendeu que a Igreja é algo mais e algo outro do que uma externa institucionalização e organização de idéias. Compreendeu que o cristianismo não é um sistema de conhecimentos, mas um caminho. O 'nós' dos crentes não é um acréscimo secundário feito para espíritos mesquinhos, mas, em certo sentido, é a própria coisa; a comunidade humana é uma realidade que se situa em um plano diferente do que a mera 'idéia'. Se o platonismo fornece uma idéia da verdade, a fé cristã aponta a verdade como um caminho, e somente tornando-se caminho, torna-se ela a verdade do homem e para o homem. Verdade como simples conhecimento, como mera idéia conserva-se sem força, e torna-se verdade do homem só como caminho que o reivindica e pelo qual ele pode e deve enveredar"
Sob este aspecto toda a teologia ratzingeriana se desnuda: o esforço pessoal para ir além da razão, além do Mundo, além da conveniência e da burocracia; ver, além de tudo isso, a Comunidade de Caridade, antes de tudo a Comunidade Trinitária, que apresentando ao homem generosamente o Arcano da Existência (o amor, e nada além do amor) possibilita a Comunidade dos Eleitos: A Igreja, cuja vida é a Liturgia. Quantos de nós, como o grande Mario Vitorino, temos nosso Platão pessoal? Nossa âncora a este mundo, nosso veículo de opulência, no qual encontramos um falso consolo, uma falsa ideia de completude, absoluto... e quantos cristãos hoje não cedem à própria figura idolátrica da filosofia, da hierarquia, da alta cultura, da ordem, esses ídolos impenetráveis, em que a Pessoa de Jesus Cristo e o Deus que Ele anuncia não estão presentes, senão como um breve eco artificial e secundário?
Contra isso, a obra de Ratzinger busca o Coração do Homem, e encontra o caminho de Cristo, O Messias do povo hebreu, que traz com sua mensagem e com sua existência a Salvação Universal. A conversão de Vitorino é o exercício perpétuo dessa teologia — a conversão que nunca finda é um dos vários sinônimos, arriscamos dizer, àquilo que os hebreus chamavam de tsedaka, que se traduz como justiça ou santidade. Aquele momento eterno em que Abraão confia a vida de seu filho a Deus — e o recebe.
É nessa fixação com o Fundamento, essa Fé Cardíaca, que o homem Ratzinger deve ser lido — porque quem se compromete a investigar O Fundamento, ao contrário daquele que se compromete com um projeto político ou filosófico, se compromete a uma jornada Pessoal, profundamente pessoal, e por isso marcada por contradições, percalços, momentos deletérios, marcas complexas. Entretanto, nenhum destes pontos negativos pode eclipsar essa razão suprema da escolha da busca pelo Fundamento: a sinceridade severa do Real, o Coração do Messias, o Tudo de Tudo, A Salvação. Digam as bocas alheias, sempre menos importantes que o assunto de que tratam, o que quiserem sobre o homem que agora morre, mas não digam que não buscou com todo coração e sinceridade O Fundamento: Jesus, o Crucificado.
Adeus, Ratzinger.
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