As Provinciais Santo Andreenses (I).
Meu irmão S. M., me dirijo a você com muita alegria, ao reconhecer seu impulso de retomar uma tradição que tínhamos há muito estabelecido, desde nosso período de adolescência, de nos comunicarmos por meio de cartas. Que esta faça jus ao nosso passado.
Você me pergunta sobre minha opinião a respeito da situação cultural que o país se encontra. Eu não posso deixar de tecer alguns comentários à respeito — receio não poder realizar mais do que isso, não só pela falta de tempo, mas também pela minha franca inabilidade de pensar sistematicamente nestes últimos tempos.
I.
Todas as categorias possíveis de serem usadas na história política das nações foram extensiva e abusivamente usadas para definir o Brasil. Carlyle não sobrevive nem para ser criticado — nossos grandes homens são muito pequenos para serem sujeitos históricos de algum domínio simbólico que seja. O tempo longo realmente é longo na história brasileira? Annales surge na França, um país cuja contagem de anos em guerra praticamente equivale todo o decorrer do Brasil “independente”. É muito difícil, sob esse escopo, dar corpo a uma nacionalidade. Mas surgem uns mancos, umas tosses.
As tentativas mais curiosas (não digo interessantes porque isso daria uma impressão de seriedade que elas não tem) são justamente as que buscam, nessa falta de tempo longo, de história, basear uma nacionalidade em substâncias mais “materiais” do fato brasileiro: ou nos corpos que o constituem, ou na extensão de seu solo. Parece um pouco estúpida — e depois de refletir muito, se descobre extremamente estúpida — a ideia de Miguel Reale de fundamentar o caráter nacional e, portanto, sua pujança e dinâmina política, no número de quilômetros quadrados do Oiapoque ao Chuí. O que dizer sobre meu juízo disso que você não pode já deduzir, me conhecendo? Essa lógica do triunfalismo e do Império que se mascara incompetentemente em bucolismos de um Teócrito (agora sem o charme da originalidade, sem o contexto no qual tinha algum valor [primeiro como tragédia…]) não convence ninguém com metade de um cérebro; coisa que as vezes falta a Reale, e principalmente a Plínio Salgado, de quem seu fiel epígono copiou toda essa ode ridícula, em sua leitura do estranho “Geografia Sentimental”. No meio disso, os comunistas. Meu Deus, os comunistas. Nunca se fizeram comunistas tão certos com seus fixismos soviéticos, com seus debates anódinos, quanto no Brasil. O militar comunista e Prado Jr. lideram debates, folhas e folhas inúteis que fariam burocratas reconsiderarem sua arte. Pouco ou nada disso nos serve. Os mais competentes? Tragtenberg não oferece uma reflexão muito detalhada, e o marxismo de Gorender é histórico, muito profundo, mas bem pouco político. Alberto Guerreiro Ramos e seu misto de marxismo e guerreiroramismo não fogem desse paradigma. Sérgio Buarque vomita Weber e Schmitt e fica por isso. Oliveira Vianna não hesitaria em concordar com Miguel Reale: o Brasil é todo espaço, ectares de plantação, gado, servos e senhores — e de preferência nenhum servo asiático. E muito menos senhores asiáticos, Deus o livre.
Surge então a escola do povo, com Gilberto Freyre — que é um autor gigantesco, mas “gigante de prole liliputiana”. Um excelente analista de costumes (talvez o melhor), historiador extático, com teorias unitárias já bem, bem menos impressionantes, esse homem franzino se tornou pelos seus leitores o insigne anunciador de uma nova solução no “povo brasileiro”. Que que seja esse povo, como se constitui, isso é criticado, mas no fim as coordenadas da discussão foram dadas por ele desde sempre. Uma estranha afinidade surge, as vezes, entre o discurso da escola do solo (Vianna, Reale, Salgado) e a escola do povo (Freyre, Darcy, Florestan). Claro, o corpo e o solo são extensos. Uma lógica realmente diabólica surge quando Darcy chama o Brasil de “Nova Roma”. Uma lógica muito cruel que consegue misturar o corpo fustigado do escravo, a veste esfarrapada do colono com o triunfalismo dos quilômetros quadrados de Vianna e Reale. O sonho de potência, do Império. Por mais que o pensamento trabalhista use de toda sua força consciente para desfazer esse seu impulso original, esse sonho sempre ressurge como monumento inconsciente, como sombra necessária. Um discurso que é base evidente para muitas violências e irrazões.
II.
Se pensarmos bem, violência e irrazão definem bem o caráter do “povo” brasileiro. Incapaz de pensar na sua própria tragédia em sentido mais puro e bruto, é um povo em geral sem sentimento de culpa, sem dote de reflexão, e assim também incapaz de amar, de exercitar uma verdadeira empatia; atributos (ou falta deles) que se escondem na simpatia e no humor desmedido. É também um povo que esconde a incapacidade de contemplação com um encômio a inércia, a falta de trabalho, e até mesmo à sua exploração clandestina. É povo sem inspiração maior, e que se aproxima em algumas instâncias ao selvagem, ao que realmente é animal: é gente que se joga em bolo de comemoração de aniversário de prefeitura, é povo que lincha inocente por acusação falsa. É um povo muito doente. Parcialmente, isso se deve a falta inerente de história do país, a uma ausência real de uma “história das consciências”. Mas isso não justifica a completa falta de noção da massa que compõe esses muitos quilômetros quadrados. Certamente a falta de letras e cultura toma parte disso, assim como a desigualdade social, absolutamente. Mas a riqueza aqui também é ridícula; a burguesia é caricata, nenhuma classe escapa de um ridículo muito próprio, muito definitivo. Nenhuma das características que apontei acima se ausentam nas camadas com ensino superior completo.
Devo insistir: acredito na necessidade da crítica de nosso povo; diferente de outros países da América Latina, mas não tão diferentes assim neste impacto profundo que a falta de senso causa em toda a história de nossos costumes. Insisto também nesse ponto: uma crítica baseada na incapacidade desse povo de pensar sua própria tragédia.
III.
Seria essa crítica um sintoma de elitismo? Não, de forma alguma; já ouviu falar, amigo, em nossos “projetos” intelectuais? Até o elitismo como opção nos é negado. Vamos falar do nosso catolicismo em comum; Alceu Amoroso Lima foi grande crítico, bom escritor, mas que restou do seu catolicismo social, sua doutrina filosófica? É Jacques Maritain o tempo inteiro, até imitou o final meio rancoroso de vida no Tudo é mistério. E Gustavo Corção? Um Jacques Maritain bem imbecil, que passou seus 80 anos de vida preso no Maritain de Trois Réformateurs – pelo menos Maritain superou essa criancice aos 40. Nosso “catolicismo intelectual” é fraco em todas as suas vertentes.
E os projetos filosóficos? O maior deles, Farias Brito, é um grande fracasso. É o protótipo do fracasso. Afirma muito acertadamente que toda filosofia alemã não é senão “um comentário sobre Kant”. Afirma logo depois que seu projeto é uma refutação de Kant. Daí já podemos prever quem é o vencedor. Daí se vai entendendo, também, que o elitismo nunca foi uma opção ao brasileiro, e que imagino a crítica do povo se estendendo também a essa campo.
E a literatura? Como dói afirmar que o maior projeto literário produzido foi de um estrangeiro – é óbvio que foi Carpeaux. A História da Inteligência Brasileira de Wilson Martins, uma tentativa de épico histórico da literatura ‘carpeauxiana’, limitado ao escopo nacional, padece de todo o tipo de preguiça; é muito ruim, falta dinâmica, falta tudo (falta dialética como dizia Melchior, mas esse também não propôs nada muito além). Continua com a viva convicção, com minha leitura de Gorender e Oliveira Lima de um lado, e do exército, as vezes bom, as vezes muito bom e na maioria das vezes bem ruim de críticos literários, que se fazem aqui excelentes historiadores ou excelentes críticos. Não fomos capazes, ainda, de juntar esses carismas. Talvez Alfredo Bosi o tenha feita, em certo grau. E mesmo assim é tudo muito fragmentado; faltam em todos sentenças finais, declarações verdadeiramente históricas – falta à sua maneira uma expressão da nossa tragédia, que vai além do sujeito colonial, ou do sujeito subdesenvolvido. Se trata, simplesmente, de uma crítica radical dos costumes e das crenças, e se Balzac podia delinear mais claramente as linhas entre a cultura e a crença burguesa, nobre decadentista e proletária em uma França de séculos passados, hoje as linhas não são, nestes aspectos, tão cindidas.
IV.
Por fim, meu querido amigo, gostaria de dar algumas glosas de otimismo (ou, pelo menos, de não-pessimismo), porque devo parecer alguém desagradável demais até este ponto, algo que talvez deixe de mostrar um pouco da verdade – e juntando decoro com desejo de me pintar menos desairoso, vamos unir o desejado ao útil.
O “povo” sempre foi nada homogêneo, complicado. Mas essa imprevisibilidade é o quinhão amigo e inimigo, é o elemento santo e profano que o constitui (ao contrário do que pensa a teologia do povo, que o compartimentaliza e, assim, não deixa de desumanizá-lo). É preciso ler Trotsky aqui, em especial o Trotsky da História da Revolução Russa; aquele povo que há pouco tempo beijava os pés do czar e medra uma onda de crenças absurdas sobre sua capacidade curativa de repente o derruba, protesta, e o faz inabalavelmente. E nós? E a mim? o que sou perto deste povo? Não somos nada. Por mais absurdo que eu creia que o povo brasileiro seja, é somente a ele que cabe a feitura da história: disso nunca serei capaz. O que resta de nós é o que restou a Robespierre em seu último discurso, é viver uma vida capaz de se justificar, uma vida capaz de morrer no turbilhão do povo, se assim este o quiser em sua força implacável, sem que a razão nos seja tirada, e que a história permaneça viva em nossas decisões e, quem sabe, num povo futuro.
Creio, porém, que ao final dos claros efeitos das contradições do capital, da miséria cultural e educacional, o povo brasileiro terá de escolher, no campo da história das mentalidades, entre dois tipos de nação: uma de Montaigne, e uma de Pascal; se se prefere uma analogia nacional, um Brasil de Oswald de Andrade, ou um de Manuel Bandeira. Ou um Brasil que se reafirma eternamente em sua preguiça, em seu orgulho, com seu desdém pelo trágico, em sua nostalgia da inocência pré-judaica (que jamais será retomada, que nem Montaigne nem Oswald conheceram), ou um Brasil capaz de anunciar sua tragédia, para além da tragédia do colonialismo, do desenvolvimento desigual e combinado; uma tragédia mais primordial – tragédia que os pagãos da Europa não conheceram, e cuja existência não foi percebida em nossos indígenas, e por isso, ao fim de tudo, não posso ser chamado nem de entusiasta da nossa classe intelectual, e nem de nacionalista – o Brasil de Pascal e de Bandeira é um afirmar de nação que no seu discurso se dilui. Se torna universal.
Comentários
Postar um comentário