Enxadas Entortam em Terrenos Novos (Parte I. Marxismo como Filosofia do Presente Concreto)

Enxadas Entortam em Terrenos Novos: Marx, Metafísica e Cristianismo.

 

A visão relativista tem sido muitas vezes considerada como uma degradação do valor das coisas, independentemente do fato de que apenas a adesão ingênua a algo absoluto, aqui questionado, poderia colocar o relativismo em tal posição. Na realidade, porém, é o contrário que é verdadeiro; somente através da dissolução contínua de qualquer separação rígida em interação nos aproximamos da unidade funcional de todos os elementos do universo, na qual o significado de cada elemento afeta todo o resto. Consequentemente, o relativismo está mais próximo do que se está inclinado a pensar em seu extremo oposto”. – Georg Simmel, “A Filosofia do Dinheiro”.

 

 Em termos gerais, a grande – gigantesca, arriscamos – contribuição do mais recente livro de Jadir Antunes, um dos mais competentes e sérios marxistas brasileiros vivos, seja a sua argumentação profunda, cuja função primeva é destacar o caráter sistemático da obra de Marx, em especial daquela obra que o próprio autor escolheu como representativa desse mesmo sistema, O Capital. Longe de ser uma teoria de economia política, ou uma teoria da história, ou uma sociologia – entendida em termos positivistas ou funcionalistas – o marxismo constitui um sistema em que o Capitalismo é criticado e, em seu bojo, a crítica é dinamizada para sua mesma dissolução. 

 

 O destino histórico do marxismo é ameaçado por suas distorções. Distorções de generalização, que consideram erroneamente os apontamentos de Marx como fontes de uma teoria da história, de uma teoria econômica ou política. Essa “tendência para que o caráter específico do marxismo seja esquecido” é comum entre meios marxistas, em especial àqueles que simpatizam com o regime soviético, que “enfatizam a validade geral e universal das proposições marxistas fundamentais para canonizar as doutrinas subjacentes à consolação atual de seu estado[1].

 

 Contra isso, Jadir Antunes nos oferece um estudo que exorta uma compreensão da obra de Marx como um sistema, em especial como um sistema crítico, e se a princípio isso afigura uma redução, afinal, a pretensão de uma “teoria da história” é muito maior do que a realização de um sistema crítico-histórico condicionado contra o capitalismo, percebamos que situar Marx em sua real intenção é radicalizar e maximizar seu alcance, porque entre pretender e realizar, a radicalidade reside da facticidade e concretude do realizar, e não na ilusão de uma pretensão total, porém irrealizável – isso é, afinal, uma grande demonstração de verdadeiro materialismo.

 

 Que a redução de Marx a essa pretensão total seja evidente, já é possível afirmar na forma com que certos bastiões tardios lidam com a leitura desse sistema, cuja expressão máxima é O Capital. Procurando em Marx aquilo que ele jamais imprimiu em sua obra, nada resta senão desconsiderar a ordem que o próprio Marx deu a sua exposição do Capital. Nem mesmo Korsch, que aqui citamos com um apontamento tão lúcido, fugiu dessa atitude. 

 

 Korsch, Althusser, Dobb e tantos outros, ao contrário de Jadir Antunes, sugerem o esquecimento, ou sugerem evitar a temida Primeira Seção d’O Capital. E é justamente a essa parte que o livro “Marx e o Fetiche da Mercadoria” faz um extenso comentário. Nessa obra, se procura “vingar” uma parte do legado de Marx contra tantos pretensos marxistas que “desdenharam deste tremendo esforço do Marx já maduro, que dava continuidade ao descortino juvenil e que foi realizado nas condições mais adversas (do ponto de vista financeiro e da saúde), o que demonstra, per se, do modo mais eloquente possível, a importância que o insigne renano lhe dá[2]. No fundo dessa investigação, Antunes encontra uma crítica à Metafísica. Podemos até mesmo usar o termo arqueologia do Capital, em que Marx descobre, por assim dizer, categorias cambiáveis entre o desenvolvimento da filosofia ocidental, religiosa ou não, e a forma com que o capitalismo opera e valora: “A crítica de Marx à Economia Política, deste modo, como procuramos argumentar, deve ser interpretada de maneira mais crítica, mais radical, mais ampla e filosófica como Crítica da Metafísica Moderna, da Metafísica agora encarnada no mercado, na mercadoria e no dinheiro[3].

 

 Essa crítica específica da metafísica, encarnada agora na sociedade capitalista – e justamente por isso, passível de crítica a Marx – opera na mesma praxe da totalidade do sistema exposto em O Capital. Isto é, analisa essas categorias na medida em que possuem “fraturas inscritas em sua ordem intrínseca[4]. Antes de lidarmos com o caráter dessas fraturas e então dialogar com o núcleo do livro de Jadir Antunes, teçamos alguns comentários sobre como essas fraturas são analisadas por Marx (poderíamos dizer, rudimentarmente, sua “epistemologia”) e como exatamente isso se reflete na própria ideia de “sistema”. Como ficará claro na exposição, somente essa reflexão já conduzirá, indiretamente, às bases das fraturas posteriormente criticadas.

 

I. Marxismo como Filosofia do Presente Concreto.

 

 O “modo de pensar” imbuído n’O Capital consiste num sistema. Nisto, é preciso entender a influência de Hegel em Marx, porque é Hegel que, esquematicamente, descarta o que poderíamos chamar de “pensamento reflexivo” da filosofia. “Caberá ao historiador da filosofia mostrar como Hegel, ao recusar a filosofia da reflexão (reflexão do pensamento em um transcendente dado, seja qual for a natureza deste último) e ao estabelecer, assim, a circularidade como o critério da filosofia [...] marca o fim de uma época do pensamento ocidental [...] é sua ideia filosófica de Sistema que importa e a conclusão que ele extraiu daí, a saber, que não existe introdução à filosofia[5].

 

 O materialismo de Marx, portanto, longe de conceber um destino unânime de “toda a humanidade”, ou entender o Socialismo como uma meta que reflete um ideal pregresso, busca analisar na mais profunda imanência o aqui-e-agora do sistema capitalista. Em suas próprias palavras:

 

“[Nossas conclusões] não são de forma alguma baseadas em ideias ou princípios que foram inventados, ou descobertos, por este ou aquele aspirante a reformador universal. Eles apenas expressam, em termos gerais, relações reais que brotam de uma luta de classes existente, de um movimento histórico acontecendo sob nossos olhos[6].

 

 Sem dúvidas, essa concepção imanente de análise é herdeira de Hegel, a despeito de todas as rupturas evidentes entre a filosofia marxista e hegeliana. Reiteramos que quando assemelhamos ambos é tão somente nessa apreensão de um sistema e da fuga ao pensamento que responde, necessariamente, a um termo transcendente (seja Deus na teologia, ou a Utopia no socialismo utópico etc.); quanto ao excesso de identificação entre o processo histórico de Hegel e Marx, concordamos aqui com Althusser quando este afirma que estes são absolutamente distintos[7].

 

 Nesta mesma toada Althusser destaca, por exemplo, a insistência de Stalin em afirmar o marxismo como superação da filosofia, o “termo final” da interpretação histórica, acusando o ditador russo, portanto, de traduzir categorias não marxistas para interpretar Marx. Se esse de fato foi o posicionamento de Stalin, a sua influência transcendeu o âmbito meramente pessoal e se metastatizou na própria sociedade soviética: 

 

 “Um filósofo que estudou na Europa Oriental sob o comunismo me disse que a ênfase principal era a história da filosofia. A filosofia era vista como tendo uma história muito instrutiva, mas não sendo mais uma disciplina viva hoje. Isso é semelhante às ideias do movimento positivista, que via a filosofia como o estágio intermediário no desenvolvimento de três estágios do pensamento humano, mais avançado que a religião, mas agora superado pela ciência. A última citação de Marx em 1845 se aproxima do positivismo, mas Marx sempre teve uma opinião mais alta de filósofos como Aristóteles e Hegel do que dos positivistas[8].

 

 Não só Marx tinha apreço à filosofia, em especial naquilo em que Hegel contribui positivamente para o método marxista – a gênese do sistema filosófico não-reflexivo – como O Capital pode, em muitos sentidos, ser considerado um trabalho de filosofia, isso é, uma obra cuja intenção é buscar um saber real e concreto, de um presente historicamente dado: o da sociedade capitalista. 

 

O marxismo, em sua exegese, é redutivo. Além disso, ele sofre de sua principal deficiência, sua ignorância da categoria psicológica. Então a relação do sujeito com a verdade, o problema da veracidade, sendo considerado apenas em termos de verdade científica ou verdade sócio-histórica, carece de instrumentos de precisão para notificar sobre defesas psicológicas”[9]

 

 Ao ler esta crítica, não de um autor caricatural, mas sério e engajado com o pensamento de Marx, podemos entender, fundamentalmente, que essa crítica vale a supostos epígonos – o dito “marxismo” – mas jamais pode ser atribuído contra seu fundador e seus estudiosos mais rigorosos. Porque sua exegese original não abrange a totalidade da existência; não é uma teoria geral. Não é redutiva porque seu objeto não anula a categoria psicológica, pelo contrário, se levanta contra todos os totalismos, todas as metafísicas, todas as teorias “reflexivas” que se arrojam e se intrometem e violentamente concebem um único método, externo aos objetos que analisa.

 

 Por isso, também é certo considerar a filosofia de Marx como filosofia de libertação: libertação contra esquemas totais, filosofias da história, determinismos; frente à tudo isso, o verdadeiro marxismo – o Marxismo de Marx, ou ao fazermos a epoché do Marxismo, na linguagem de um fenomenólogo como Michel Henry – postula uma filosofia sistemática em que a liberdade é verdadeiramente afirmada, não através de um direito abstrato, mas de um posicionamento concreto para com o real, entendendo o real como ele é, em seus próprios termos; essa é, justamente, a razão pela qual Marx se levanta contra o Capitalismo desde o princípio: ele é irreal e condiciona o trabalhador a um mundo de ilusões e abusos, dificilmente perceptíveis quando este último se encontra sujeito às formas de exploração sutis que lhe roubam.

 

 Sob estes mesmos princípios, um dos maiores conhecedores de Marx, Trotsky, dizia: “Baseamo-nos no materialismo dialético, do qual brotam conclusões não só sobre política e ciência, mas também sobre arte. Ainda assim, há uma grande diferença em nossa atitude em relação a essas conclusões. Não podemos, em grau semelhante, exercer o mesmo controle rigoroso sobre a arte, pela própria natureza dessa atividade, como sobre a política. O Partido é obrigado a permitir uma liberdade muito ampla no campo da arte”; e essa liberdade, concretamente, se aplica até ao filosofar, pois “vista desse ponto de vista, a atividade filosófica está entre a arte e a política[10].

 

 Daí, neste caráter complexo e, digamos, não conclusivo ou totalista do marxismo, Dussel considere que Marx em muitos sentidos esteja mais próximo de Schelling do que de Hegel, porque esse sistema marxista, se inspirado em sua lógica no último, tem seu conteúdo sempre aberto a liberdade e ao “não determinado” característico do primeiro; de tal maneira que podemos transcrever esse trecho de Schelling e atribuí-lo integralmente a Marx, sem que haja escândalo:

 

O ponto é este: a filosofia não é algo com o qual nossa mente, sem sua própria agência, está originalmente e por natureza imbuída. É ao longo de um trabalho de liberdade. É para cada um apenas o que ele mesmo fez; e, portanto, a ideia de uma filosofia [é] apenas o resultado da própria filosofia; uma filosofia universalmente válida, no entanto, [é] uma invenção vangloriosa da imaginação[11].


Jamais podemos, nestes termos, chamar o marxismo de teoria ou filosofia da história, no precípuo ponto que o que se faz é filosofia do presente (o que contraria a filosofia da história, que se pretende reflexiva também do passado e ou do futuro) e do presente concretamente dado (o que contraria a teoria da história, que se supõe aplicável em outros presentes dados abstratamente). O que se faz no marxismo é, pura e simplesmente, filosofia. Filosofia de um presente concreto, que se encontra em movimento, e em um movimento cujo caráter é de dissolução - a dissolução mesma do próprio sistema capitalista. 



[1] Karl Korsch, “Three Essays on Marxism”, Monthly Review Press, 1971, p. 135.

[2] Jadir Antunes, “Marx e o Fetiche da Mercadoria: Contribuição à Crítica da Metafísica”, Paco Editorial, 2018, p. 19.

[3] Ibid. p. 25

[4] Isaac Rubin, “História do Pensamento Econômico”, Editora UFRJ, 2014, p. 494.

[5] Eric Weil, “Lógica da Filosofia”, É Realizações Editora, 2012, pp. 619-620.

[6] Karl Marx, “Manifesto Comunista” em “Selected Works in One Volume”, International Publishers Company, 1986, pp. 46-47.

[7] Ler Louis Althusser, “On the Reproduction of Capital”, Verso, 2014, pp.  210-231

[8] Andrew Collier, “Marx”, Oneworld Publications, 2004, pp. 131-132

[9] Eugênio Trías, “El Artista y la Ciudad”, Editorial Anagrama, 1997, p. 130.

[10] Leon Trotsky, “Writing of Leon Trotsky [1932-1933]” Pathfinder Press, 1972, pp. 279-280.

[11] Schelling, “Ideas for a Philosophy of Nature”, Cambridge University Press, 1995, p. 9.

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