Duas Palavras sobre Revolução.

 Curzio Malaparte destaca muito antes de Foucault que o poder no Estado Contemporâneo é antes uma técnica do que um topos: um lugar ou espaço. E, para Malaparte, o maestro que conduz essa mudança de paradigma é Trotsky[1]. O livro do Malaparte foi mal-recebido pelo círculo intelectual trostkista da época; lembro de ler uma resenha na Quarta Internacional[2] a respeito das inverdades que ele imprime na suposta inimizade entre Trotsky e Lenin em boa parte do livro, e reconhecidamente Malaparte exagera nos seus relatos, não discordamos[3]

 

 Mas o ponto essencial do livro, de que foi Trotsky que pensou a estratégia do Golpe de Outubro, é absolutamente correta — e Lenin deu pleno aval à estratégia de Trotsky.  Não vou entrar nos méritos detalhados da questão, mas em essência Trotsky, à revelia da opinião inicial de Lenin e da maioria bolchevique, negou a estratégia de se levar as massas para confrontar o governo liberal num dia derradeiro (à moda de uma Queda da Bastilha). Para Trotsky, o que importava era tomar os centros pontuais que proviam a manutenção da cidade: postos de abastecimento, eletricidade, luz, água. Na medida em que tomassem esses pontos estratégicos, o governo capitularia.  Foi exatamente o que aconteceu. Kerensky reuniu todos os guardas na frente do palácio e esperou a “grande revolta das massas”. Mas a massa não veio.  A região foi tomada por um breu absoluto e pelo frio. Um Golpe. Não se usa, aqui, esta palavra em seu sentido deletério; Golpe no sentido de um ataque rápido e mortal, preciso. Contudo, e isso poucos parecem lembrar, a tomada de poder pelos bolcheviques foi imediatamente respondida por ataques de setores russos e pela totalidade dos exércitos internacionais da época. O Exército Vermelho sem dúvida alguma foi um sucesso militar, sucesso este, porém, que sem o apoio da população local, jamais teria mantido a Revolução. Quem diz isso não somos nós: é de conhecimento histórico o relato de um general do Exército Branco reclamando, por exemplo, da ajuda e do auxílio que a população local da atual Ucrânia proporcionava ao Exército Vermelho[4].  

 

 O Golpe é uma ação imediata e necessária no atual desenvolvimento do Estado, mas só se prolonga a sua substância — o fim pelo qual atua — na medida em que as demais partes da sociedade cooperem: aqui ainda podemos falar de Revolução e das massas. O golpe de estado de Trotsky viabilizou e ao mesmo tempo fez parte de algo maior: a Revolução de Outubro.

 

 Isso traz à tona algumas conclusões; primeiro, é verdade que Malaparte sensivelmente desfaz essa idolatria que hoje se encontra extremamente viva, a letargia que traz a ilusão do populismo e da “conscientização”. Como bem diz Zizek, hoje o ópio do povo é, para ser preciso, o povo. Um processo de mudança radical do atual sistema não advém das massas unicamente, em um processo de libertação nacional que seja, ou de uma “consciência descontruída” (a “velha superstição” dos sociais-democratas, como bem dizia Korsch, da educação e da pedagogia como os grandes vetores da Revolução). Mas, ao mesmo tempo, não se pode afirmar, como alguns, que o caráter “golpista” do processo liderado por Trotsky “sepulta” toda a teoria da Revolução anterior a ele. Não existem mais processos de massa como a tomada da Bastilha, mas as massas ainda formam uma fronteira elementar, ainda mais elementar que o choque inicial do golpe: a fronteira fundamental da sobrevivência posterior do processo revolucionário que o golpe proporciona.

 

 Esse é um aspecto de um problema historiográfico bem conhecido, o divórcio entre a concepção teórica de Trotsky pelos marxistas, e a concepção militar de Trotsky pelos historiadores. Com efeito, pensamos, e não sozinhos, que o caso de Trotsky deve ser pensado conjugado, numa espécie de Gestalt: o general marxista[5]. Ninguém menos que o próprio autor para demonstrar que seu pensamento sobre o golpe nunca deixa de se veicular a importância de seu fim: a vida das massas:

 

Um genuíno levante de massas pressupõe inevitavelmente uma greve ferroviária. Antes que o governo possa começar a transferir suas forças armadas, ele deve – em combate implacável com o pessoal em greve – tomar a linha férrea e o material rodante, organizar o tráfego e restaurar os trilhos destruídos e as pontes explodidas. Os melhores fuzis e as baionetas mais afiadas não bastam para tudo isso ... Além disso, antes de proceder à transferência das forças armadas, o governo deve conhecer a situação do país. O telégrafo acelera as informações a um nível maior medida que as ferrovias aceleram o transporte. Mas aqui, novamente, um levante pressupõe e engendra uma greve dos correios e telégrafos[6].

 

 Pensamos que, além da interpretação limitada do paradigma do golpe como anulação da Revolução de massa, e perpassando as ilusões atuais da maioria dos partidos e de comunistas conselhistas, libertários e anarquistas em relação ao “povo” tomado em abstrato, sem estratégia diretiva, uma visão da Revolução como um corpo intermediário se torna necessária.

 

 Por corpo intermediário, tomamos emprestado um apontamento de Leibniz sobre a diferença entre corpos orgânicos e inorgânicos, segundo ele:

 

Cada corpo orgânico de um ser vivo é, portanto, uma espécie de máquina divina ou autômato natural, infinitamente superior a todos os autômatos artificiais. Porque uma máquina, construída segundo a arte humana, não é uma máquina em cada uma das suas partes, por exemplo o dente de uma roda de latão tem partes ou fragmentos que já não são algo artificial e já não têm nada que caracterize a máquina no que diz respeito ao uso a que se destina a roda. Mas as máquinas da natureza, isto é, os corpos vivos, são máquinas até em suas menores partes até o infinito. É o que constitui a diferença entre a natureza e a arte, isto é, entre a arte divina e a nossa[7].


 O golpe enquanto ato necessário e suspensão logística do Capital – local de início e, se pretende realmente implantar uma sociedade distinta, pelo próprio caráter do capitalismo, internacional ao fim – é artificial, posto e organizado sob táticas e recursos capitalistas, inseridos dentro da lógica do capital. Mas esse golpe, se bem-sucedido, inicia um processo que, em sua conservação, pressupõe a participação da massa: só aí se torna, propriamente Revolução. Esse estado intermediário entre o autômato que o golpe artificialmente gera e a “faísca” que toma conta e produz uma nova sociedade onde as massas ativamente participam para sua conservação, mesmo em suas menores porções sempre vivas e ativas, é o que tentamos apontar como existente.

 

 

 



[1] Curzio Malaparte, “Technique du coup d'état”, Grasset, 2008.

[2] Paul Shapiro, “Bury the Dead”, Fourth International, Vol.9 No.3, Maio de 1948, pp. 93-95.

[3] Nas palavras de um historiador: “Sua visão das coisas [Malaparte] pode ser resumida como essencialmente retórica, um antigo traço latino, uma elevação bastante deliberada da realidade para efeitos expressivos [...] hiperbólico e exibicionista”. Em Arthur R. Evans, “Assignment to Armageddon: Ernst Junger and Curzio Malaparte on the Russian Front, 1941-43”, Central European History, Vol. 14, No. 4, Dezembro de 1981, pp. 320-321.

[4] Horace B. Davis, “Nacionalismo y Socialismo”, Península, 1975, p. 81.

[5] Harold Walter Nelson, “Leon Trotsky and the Art of Insurrection (1905-1917)”, Routledge, 1988.

[6] Leon Trotsky, “1905”, Random House, 1971, p. 267. 

[7] Leibniz, “Escritos Filosóficos”, Editorial Charcas, 1982, p. 620.

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