Uma Noite como todas as outras na Avenida Goiás de São Caetano.
*
- Sim, ele foi até lá e disse que é isso, mesmo. Se você entra numa casa de banho, vai sair mais chupado e fodido que enxaguado.
Os dois amigos -mal tinham passado para a fase adulta- sentavam-se sós. O declive do canto da calçada impingia ambas as frontes, feminina e masculina, numa tendência de ser-para-a-rua, de tal forma que, a cada carro vindouro, não podiam deixar senão de se assustar, daqueles sustos premeditados e regulados: a sensação era de que as frontes seriam levadas úmidas pelo carro, calçada, rua, asfalto.
- Que nojo - dizia ela, contrariada com o tom da conversa.
- Também acho. Eu nunca faria isso. Não digo com ares sacrossantos, não. Acho perturbador a “essência” da coisa.
- Hã?
- O tom da coisa, muito errado. Quer dizer, pagar para foder já é uma mentira, mas cobrir essa mentira com mais outra, é demais para mim. Uma casa de banho deveria ser uma casa de banho, e ponto final.
- Não é como se não fosse errado de início, também. Não é?
- É, mas a questão fica muito pior. Olha, existe algo horroroso na aparência quando ela envolve mentiras. Sem brincadeira, eu seria capaz de ter pesadelos com essas moças da “casa de banho”, se as conhecesse... existe algo de profundamente mau em se esconder uma real intenção. Demoníaco, mesmo. Se você é uma prostituta e ponto final, há uma dignidade mínima em se reconhecer “é isso que sou agora e fim”, coisa que essas não conhecem, nelas há sempre uma parte que esconde a outra, isso é insuportável.
- Honestamente, você acha isso tão diferente disso aqui?
Ela apontava para a Avenida. De sexta até domingo, um ponto que, nos outros dias, era bonito e vazio transmutava em uma espécie de favela móvel de bares cheios até a boca. Esses copos de cerveja transbordavam cadeiras e concretos até o fim da calçada; era, aliás, um local desses no latifúndio que lhes tinha sido reservado. Ela era uma moça ajeitada, prendada, o pai era médico! Se o pai fosse jornalista, talvez ela tivesse caído para o outro lado da cerca, mas não, era médico. As outras, do outro lado, eram realmente pedaços de carne expostos a céu aberto, queridos tanto pelos homens, quanto pelos balcões que se beneficiavam com os tarados ali. Muitas filhas de jornalistas e, quem sabe, professores. E muitas carteiras, muitas.
- Não, não é tão diferente. Aliás, é igual. Isso é um pouco assustador.
- O que? Segundas intenções? São comuns.
- Veja como as coisas são; as pessoas se exibem por aí como pequenos “todos”, mônadas impassíveis que cumprem um papel. E no fim, esse papel é só isso, segunda intenção. O “todo” é na verdade uma mísera parte, por vezes criada pouco antes de sair de casa. Orgasmos fingidos, sorrisos amarelos, um “te ligo depois” sem troca de telefone. Claro, existe um nível saudável dessa performance.
- Já leu aquele conto do Lobato sobre a mulher do Melo?
- Não.
- A mulher de um sujeito chamado Melo empanturra comida no esôfago de um amigo do marido, até ele não aguentar mais. Ao invés de manter o decoro (como fazemos naquele dia da avó gulosa, ávida para nos impressionar com um cardápio infinito de coisas), o protagonista perde a consciência e estraçalha a cabeça da coitada com uma garrafa, em cólera. Nesse tipo de situação, onde a civilidade está em tensão, é bom manter sua parte designada no ambiente. Já em outras, o melhor é mandar todo mundo tomar no cu, como o Hamlet fez.
- É, tem razão. Mas mesmo a civilidade somente é uma necessidade tediosa. Tudo isso me entedia.
- Hm, é.
- Certo, mas também, não é pedir demais às prostitutas japonesas? Você realmente acha que existe alguém capaz de ouvir a história de cada uma delas, se compadecer, permitir-se tocar a alma aquela dose de uma realidade humana que realmente é um “todo”? A condição humana limita a expressão. A condição humana viabiliza o enfado, e frente a ele o homem prefere um boquete.
- Não sei, existem exceções.
- Como?
- Há muito tempo, eu conheci uma mulher que conseguia, por meio de qualquer gesto, até no gesto sutil de se manter existindo, comunicar tudo.
- Sim, mas não isso não vem ao caso.
- Tá.
O movimento da avenida agora chegava em seu pico. As hordas alucinadas passavam sem noção própria de equilíbrio e espacialidade, o cheiro da cerveja no concreto, amalgamado com o gosto ácido da chuva operária e industrial de São Paulo, tornava-se a experiência infernal por excelência. Ela inconscientemente agora colocava guardanapos entre as mãos e constantemente os dirigia na altura no nariz, o que abafava parcialmente o cheiro protocolar e sujo. Isso, ela não sabia, é verdade, a fazia especialmente bonita; cobrindo as narinas e a boca -larga, panda- apenas permitindo o vislumbre dos olhos -grandes, vistosos.
- Me parece que sentimos por algumas poucas pessoas, na vida inteira, essa intelecção cósmica dos atos. Cada ato da pessoa como ato final. Isso faz com que haja uma certa presentificação em tudo que ela faça; quando eu a via passar um café, juro que o que eu encarava– não necessariamente a coisa crua, mas a cena no meu entendimento – era muito mais interessante do que qualquer obra de arte, qualquer obra gerada pelo ócio humano. Quando eu a via vestindo uma meia, comendo, qualquer rotina ou exceção, pouco importa, é como se toda a perfeição se fizesse manifesta. E o interessante é que essa “presentificação” gerada, é próxima à definição de eternidade... porque tudo que a pessoa faz cai inevitavelmente no mesmo sentimento de fascínio.
- Entendi. – Ela fingia normalidade, mas na verdade tinha achado aquilo extraordinariamente bonito.
- É, mas é raro. Acho que no caso delas depende de um milagre mesmo, alguém capaz de ver isso nelas. Um santo.
- Só um santo, mesmo.
- Mas sempre me pergunto, como saber se a pessoa está realmente comunicando tudo, expressando tudo, se nosso critério é realmente tão falho? Não será só uma parte maior? É sequer possível distinguir com critérios humanos? Como saber se devo realmente me entregar por completo, em cada ato assinalado?
- ...
- Sei, sim.
- Qual a diferença entre a presença de Deus dessa forma e a Encarnação? Não é salto quantitativo, não há “mais” ou “menos” Daquele que É. Só pode ser qualitativo, e o único critério de distinção dessa qualidade é... Deus mesmo.
- Você quer dizer que...
- O que você viu naquela mulher, a certeza que te eleva, é a própria divindade. Só assim para saber, a distinção máxima entre aquela face que mostra o máximo da “parte” possível, e aquela que permite, por poucos segundos ou por uma vida inteira, Deus se manifestar por meio dela, para outro.
Ela terminou de dizer aquilo e o fitava, sem sustar. Esperava uma resposta.
Ele via, agora, tudo diferentemente. Os cílios dela, quando adjuntos no cerrar de pálpebras, imitavam o eterno movimento da Criação do Mundo; em cada olhar trocado e palavra dita, Deus criava tudo que era bom, novamente, só para ele. Era um espetáculo de tudo que podia ser público, na esfera privada de sua alma. Era ela, bem ali. Fanaticamente mulher.
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