Notas sobre Adorno e as Eleições.
1. Adorno afirmava, a revelia de boa parte da esquerda mundial atuante hoje, que a mentalidade autoritária não é resultado do verdrängung, do recalque ou de repressão mental, cujo predomínio caracteriza a neurose. "Os indivíduos autoritários não são, de forma alguma, mais neuróticos do que os outros, se quisermos falar de determinados defeitos psicológicos dessas pessoas, então eles são vistos [...] na direção das psicoses, principalmente na paranoia". Ainda mais, o autor caracteriza a neurose como patologia "no tipo oposto", no caráter anti-autoritário[1].
Com efeito, uma compreensão da mentalidade autoritária como complexo de repressão baliza um tipo de discurso de resistência que se demonstrou, nessas últimas eleições de 2022, absolutamente inefetivo. Se a esquerda, num nome representativo óbvio, conseguiu se manter predominante na eleição presidencial, sua força enquanto movimento ou "unidade existencial"[2], foi anulado - e isso se exibe pelo desempenho pífio em qualquer outro âmbito; seja do senado, seja do congresso.
2. Esse discurso da mentalidade anti-autoritária pode ser sintetizado em certas acusações-chave, que recapitulam a concepção - errônea - do autoritário como sujeito passivo de neurose, a saber: a ignorância sentimental, a confusão mental, um suposto idealismo e irrealismo que se descreve como ignorância objetiva (o burro, puro e simples), o sujeito com problemas sexuais ou de performance sexual, etc. A associação ao adoecimento neurótico, portanto, supõe uma alienação para com a realidade das coisas, como o próprio Freud destaca, ou uma "frustração" com a realidade pelo objeto de satisfação ter sido-lhe retirado (na mentalidade da esquerda, o autoritário se sente ameaçado pela retirada do privilégio patriarcal, pelas liberdades individuais), ou pela incompetência do sujeito em debater-se com as "exigências da realidade"[3]. Novamente, ambas supõe esse "irrealismo", próprio da neurose, um doente recôndito num mundo de ilusões em crise.
O candidato, que hoje se encontra à frente das pesquisas, seria a voz maior da realidade, a vigência do antigo sistema coerente, que convoca o realismo para si e desperta a sociedade contra a pulsão neurótica do autoritário.
A voz nostálgica encontra seu termo com muita ênfase, um efeito quase masturbatório (neurótico) dos feitos do passado e sua possibilidade de concreção na atualidade, com um ausência clara da referência as situações concretas e suas especificidades - até porque, se estas fossem adereçadas, o discurso nostálgico do passado seria totalmente descreditado como pueril, ilusório, e de fato irreal. Adorno permanece arguto nesse sentido, porque nos parece que o caráter neurótico é mais próprio da esquerda brasileira. A união de polos tão teoricamente contrários a fim de uma vitória (não lograda, diga-se) do primeiro turno não seria, à sua maneira, uma tentativa compulsiva de repressão, recalque ou verdrängung das diferenças?
Daí todo o fracasso do ressurgimento deste ano das esquerdas. O diagnóstico da esquerda brasileira em relação a essência do fenômeno autoritário da sociedade nacional, equivocado, não podia deixar de advogar um prognóstico igualmente equivocado.
3. Não existe, na mentalidade autoritária, uma cisão neurótica, mas sim uma coerência fria com o sistema. O problema reside, justamente, na tentativa da identificação absoluta do discurso de esquerda com o sistema vigente - uma identificação neurótica. A realidade do autoritarismo fixa-se não num irrealismo que mascara insuficiências mentais, mas uma franca associação, o que Adorno chama de "princípio de realidade"[4], com o sistema atual. Nomes antigos da política, agora associados a esse movimento, voltaram a ser eleitos; filhos de personalidades midiáticas e membros de famílias do coronelato, igualmente. Se o autoritarismo nacional usa de alguns chavões anti-congresso, ou anti-sistema eleitoral, ele reafirma, no termo decisivo da afirmação desse sistema - a eleição -, sua reprodução.
Justamente por isso, em Adorno, o autoritário se identifica mais com o adoecimento psicótico, que não se define como irrealismo, ao menos não como se define comumente. A palavra-chave é o narcisismo, coletivo e individual, a atenção, ou pulsão, e mesmo em termos próprios de Adorno e não de Freud, a necessidade (Bedürfnis) centrada no Eu, a despeito da figura do Outro, encarnada no amor, no altruísmo, na empatia, ou que seja. Os termos já são, não impotência, frustração, mas virilismo, egoísmo, frieza e até mesmo uma "inteligência excessiva" ou efetiva, própria unicamente da razão instrumental. Longe de ser irrealista ou ingênuo, o autoritário do eleitorado brasileiro é excessivamente realista, se identifica tanto com o sistema que, não só não o questiona, mas o intensifica, o ajuda, contribui para sua reprodução e perpetuação. Ele é irracional e irreal em última instância, mas é racional e real quando identificado com o sistema em que habita. Como uma máquina viciosa maximamente efetiva para um esquema produtivo que deseja tão somente aquele produto viciado.
A mentalidade autoritária, a brasileira não sendo exceção, "libera uma espécie de racionalidade muito mais superior que a dos seus oponentes na escolha dos meios [...] reflete o primado de uma realidade social que produz seres humanos já tão insanos quanto ela própria"[5]. Poderia-se afirmar o absurdo de um discurso político que se afirma nacionalista e, simultaneamente, advoga a privatização não só de setores estratégicos mas até de espaços públicos do país, como praias. Não estaria equivocado levantar-se contra o irracionalismo de comemorar a queda do desemprego e um suposto desenvolvimento nacional, quando essa queda fixa-se principalmente em empregos informais e dos setores de serviço. A questão é que isso não é um absurdo no capitalismo, por mais que o capitalismo seja, visto externamente, como um absurdo. Uma absurdidade que não deixa todavia de reproduzir sua coerência interna.
4. Podemos, assim, tirar conclusões sobre o discurso da oposição. Primeiro, falso em diagnóstico e inefetivo em prognóstico. Contraditório por se identificar excessivamente com o sistema. Contestar sinceramente a personalidade psicótica do autoritarismo nacional terá, como consequência inelutável, contestar partes do sistema vigente, econômico e político.
Também a insistência no discurso que acusa o autoritarismo de neurose, a insistência de se aliar a setores em geral considerados hostis ou antipáticos pela sociedade como um todo que reproduziam esse discurso (como o setor artístico e jornalístico) foram determinantes para a falha monumental de investida de oposição ao governo que reside no país desde 2018, que finca raízes ainda mais profundas nas instituições e na cultura nacional agora com seu êxito em 2022.
5. Muito mais aterrador que uma sociedade reprimida ou neurótica, testemunhamos atualmente um fenômeno de um sociedade progressivamente psicótica, que se identifica, ao menos nos momentos decisivos da estrutura política, com o sistema vigente; que com extremo realismo e com um raciocínio calculado apoia e mesmo desenvolve os vícios autoritários, que não ameaçam as instituições essenciais das reproduções desse mesmo caráter autoritário, pelo contrário, as conservam na medida em que estas são efetivas e oportunas.
Notas.
[1] Theodor Adorno, "Ensaios sobre Psicologia Social e Psicanálise", Editora Unesp, Rio de Janeiro, 2007, p. 197
[2] Existencial, no sentido schmittiano de algo cuja presença é, em certa medida, independente quando comparada as demais influências sociais - de forma que sua "existência" ou "havência" é percebida e justificada sem referências diretas a outras realidades. Isso não descarta a inter-dependência última de toda a estrutura social; assim como um filho é originado de dois pais, mas mesmo assim não precisamos referenciar, diretamente e a todo o momento, a existência da pessoa ao pai ou à mãe.
[3] Freud, "Tipos de Adoecimento Neurótico", em Obras Completas vol. 10, Editora Schwarcz S.A., São Paulo, 2019, pp. 230-239. Todos os quatro tipos descritos por Freud, mesmo aquele cuja justificativa do adoecimento é um aumento fisiológico da libido, pressupõe essa desfuncionalidade entre o sujeito e a realidade externa - a neurose sendo justamente um sintoma que procura proteger o Eu em uma situação ilusória, compulsiva, etc.
[4] Adorno, "Ensaios sobre Psicologia Social e Psicanálise", p. 195.
[5] Ibid., p. 196.
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