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Medicina e Angústia.

    Ao meu amigo de futura profissão, Lucas M., cujas discussões sempre frutuosas levaram a concepção desse texto. Sofremos juntos (Salmo 119, 50).     É preciso deixar claro que todas as impressões aqui denotadas não são mais que isso; impressões, e de um aluno ingressado em uma instituição de formação médica. Não deixam de ser, porém, impressões do fundo de uma alma que pensa e que atua.   *    A angústia é um sentimento muito próprio do verdadeiro interessado em medicina; e com isso, não nos referimos a angústia do estudante medíocre, a angústia simples do receio de não passar de determinado semestre, de não tirar o necessário em determinada prova, etc. Fala-se de uma angústia atávica, propriamente experienciada por todo o estudante cuja vocação médica de fato se apresenta: a angústia de não entender o bastante; de estar, de certa maneira, fingindo que sabe mais do que de fato sabe. A relação entre médico e paciente demanda uma respeitabilidade...

Luís Fernando, Veríssimo.

  Como é engraçado pensar em Luis Fernando Verissimo. É verdade, não é um autor reivindicado por nenhuma escola, nenhuma posição política. Os arautos da alta cultura não o conhecem - como não conhecem, em verdade, coisa nenhuma -, os entusiastas de vanguarda o acham pouco sério. Só quem tem ciência de quem é Luis Fernando Verissimo é o povo brasileiro, mesmo. São milhões de livros vendidos, um dos mais bem sucedidos escritores do país, e não desses que some da memória depois do furor, nem desses cujo sucesso decorre de polêmicas violentas.  É engraçado pensar nele porque não se computa com facilidade um homem tão eloquente na escrita, talvez a mais eloquente da nossa história, ser tão lacônico em entrevistas, na vida real . Embora a intenção desse texto não seja analisar a obra e o estilo de Verissimo, e sim entender um pouco o que a figura deste autor pode nos sugerir, não podemos fugir de falar, mesmo que minimamente, sobre a escrita de um escritor . Verissimo possui uma ...

Adeus a Joseph Ratzinger.

É muito difícil falar sobre nosso primeiro teólogo. Confesso que li uma quantidade abstrusa deles, de diferentes nacionalidades, enfoques, vertentes e idiossincrasias, mas meu primeiro foi Ratzinger. Foi com “Introdução ao Cristianismo”, “Jesus de Nazaré”, “O Espírito da Liturgia” e tantos outros que eu iniciei esse percurso, há alguns anos atrás. E mesmo que meu interesse não tenha sido tão vívido com sua obra depois do início, é praticamente impossível navegar em querelas da Igreja atual sem retomar “Dogma e Anúncio”, “Teologia da Liturgia”, “Igreja, Ecumenismo e Política”… a lista poderia continuar.   Talvez a primeira questão que surja sobre a figura de Ratzinger, e aquela que mais incomoda os espíritos apequenados, diletantes, irriquietos em condenar o que lhes falta — gênio —, é sua incapacidade de se moldar a um esquema. Na verdade, boa parte dos grandes teólogos que são postos em um esquema, se bem estudados, demonstram também que foram postos ali de forma grosseira, resu...

Possessão e Suicídio

  “ Sim, a ética [é] antes e para-além da deontologia, do Estado ou da política, porém a ética [é] também para-além da ética ” – Derrida, “ Adeus a Emmanuel Levinas ”.      A afirmação do homem como animal social é subestimada pela grande maioria da tradição filosófica ocidental. Podemos, na mesma perspectiva em que Eric Weil corrige certos lugares comuns a respeito do “homem como animal racional” apontar algumas questões a respeito do homem enquanto social.    Primeiro, se o homem é de fato um animal possível de razão, isso não lhe define, de imediato, como racional; mais correto seria chamá-lo de animal razoável, posto que a operabilidade da razão nele só se atualiza por um posicionamento.    Segundamente, o ato da razão no homem, que o implica inelutavelmente já dentro do campo da razoabilidade, o impinge a questionar o seu estado prévio, definindo este como violência. A razoabilidade do homem, quando atualizada em razão efetiva, impõe o limite...