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Duas Palavras sobre Revolução.

  Curzio Malaparte destaca muito antes de Foucault que o poder no Estado Contemporâneo é antes uma   técnica   do que um   topos : um lugar ou espaço. E, para Malaparte, o maestro que conduz essa mudança de paradigma é Trotsky [1] . O livro do Malaparte foi mal-recebido pelo círculo intelectual trostkista da época; lembro de ler uma resenha na Quarta Internacional [2]   a respeito das inverdades que ele imprime na suposta inimizade entre Trotsky e Lenin em boa parte do livro, e reconhecidamente Malaparte exagera nos seus relatos, não discordamos [3] .     Mas o ponto essencial do livro, de que foi Trotsky que pensou a estratégia do Golpe de Outubro, é absolutamente correta — e Lenin deu pleno aval à estratégia de Trotsky.  Não vou entrar nos méritos detalhados da questão, mas em essência Trotsky, à revelia da opinião inicial de Lenin e da maioria bolchevique, negou a estratégia de se levar as massas para confrontar o governo liberal num ...

Enxadas Entortam em Terrenos Novos (Parte I. Marxismo como Filosofia do Presente Concreto)

Enxadas Entortam em Terrenos Novos: Marx, Metafísica e Cristianismo.   “ A visão relativista tem sido muitas vezes considerada como uma degradação do valor das coisas, independentemente do fato de que apenas a adesão ingênua a algo absoluto, aqui questionado, poderia colocar o relativismo em tal posição. Na realidade, porém, é o contrário que é verdadeiro; somente através da dissolução contínua de qualquer separação rígida em interação nos aproximamos da unidade funcional de todos os elementos do universo, na qual o significado de cada elemento afeta todo o resto. Consequentemente, o relativismo está mais próximo do que se está inclinado a pensar em seu extremo oposto ”. – Georg Simmel, “ A Filosofia do Dinheiro ”.    Em termos gerais, a grande – gigantesca, arriscamos – contribuição do mais recente livro de Jadir Antunes, um dos mais competentes e sérios marxistas brasileiros vivos, seja a sua argumentação profunda, cuja função primeva é destacar o caráter sistemático da...

Lendo Rubem Fonseca: Esboço de uma Teoria Literária.

I.  O primeiro estágio da leitura é a percepção imanente dos fatos avulsos. São os fatos da história, o fluxo organoléptico e mecânico das coisas em movimento, clímax e desfecho. Macbeth aparece nobre, perverte-se, mata o Rei, perverte-se ainda mais, mata Banquo, em devaneios de grandiosidade atinge estágios diabólicos tremendos e finaliza a vida num estado quase certeiro de danação eterna e, certamente, temporal. A maioria das pessoas aprende esse estágio da leitura dos clássicos no ensino médio: essa é a leitura requerida pelo vestibular; o professor de literatura se encarrega de provocar o exercício mnemônico de chavões abstratos sobre o significado profundo disto ou aquilo, mas não passa disso.  Quanto ao segundo estágio, e depois dele não há volta, é o estágio simbólico-tropológico. Frente a este nenhum fato avulso é mero fato avulso, tudo é morfológico, tudo quer dizer algo-além. É através desse estágio que se faz um clássico, é só n...

Notas sobre Adorno e as Eleições.

1. Adorno afirmava, a revelia de boa parte da esquerda mundial atuante hoje, que a mentalidade autoritária não é resultado do verdrängung , do recalque ou de repressão mental, cujo predomínio caracteriza a neurose. " Os indivíduos autoritários não são, de forma alguma, mais neuróticos do que os outros, se quisermos falar de determinados defeitos psicológicos dessas pessoas, então eles são vistos [...] na direção das psicoses, principalmente na paranoia ". Ainda mais, o autor caracteriza a neurose como patologia " no tipo oposto ", no caráter anti-autoritário[1].  Com efeito, uma compreensão da mentalidade autoritária como complexo de repressão baliza um tipo de discurso de resistência que se demonstrou, nessas últimas eleições de 2022, absolutamente inefetivo. Se a esquerda, num nome representativo óbvio, conseguiu se manter predominante na eleição presidencial, sua força enquanto movimento ou "unidade existencial"[2], foi anulado - e isso se exibe pelo de...